Como quem enfia linha no fundo da agulha, ela olha: certeira, penetrante, querendo bordar. Tecelã de encantos, moça de renda aprendeu a coser com os olhos e com eles, seus pontos, fazem pregas que não se soltam. Dobra meninos como o origamista dobra papeis e os prende em seus mistérios quase infantis. Seus cabelos de noite tem a preferência da brisa que lhes coreografa as pontas. Sua boca, cesto de frutas vermelhas, tem cor de amora, forma de cereja, e deve ter gosto mesclo entre o morango e a framboesa; a poesia de seus traços, eu sei, tem a assinatura de Atenas. Mas, não. Não é a luminosidade de seus mil cristais que espelham beleza: são seus olhos! Seus olhos e olhares tricotam canduras numa costura que a alfaiataria humana não alcança. Longe de ser divino, o magneto de seu poderoso olhar é a meninice, a traquinagem, a doce maldade de quem agride quando oferece um doce de abóbora ou se delicia comendo uma maçã do amor. Suas meninas - as dos olhos - cirandam em rodopios mágicos, milongueiros, hipnóticos... Mergulhar-se-lhes é se perder em labirintos, cristalizar-se num âmbar, ser tragado pelo buraco negro da constelação do novo Órion. Plissados em seu tear, há os que se questionam com seus botões: quem é essa que faz acupuntura com a visão, golpe de judô com os cílios e raio de sol com os desmaiar das pálpebras? Moça de renda não se explica. Moça de renda só costura.
Moreno Pessoa

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Muito obrigada pelo seu comentário...